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Outubro de 2019
O barulho do bipe alto e insistente me acordou e derrubei
tudo que tinha na mesa de cabeceira na tentativa de pegá-lo. Minha cabeça doía horrores
e o movimento brusco que fiz para me sentar e ver o que tinha no visor dele fez
todo o quarto girar. Maldita despedida de solteiro de Emma, havia perdido a
hora e estava atrasada para o plantão. Dra. Torres ia me matar.
Não tive tempo de tomar banho, vesti a primeira roupa que
encontrei no armário, peguei meu jaleco pendurado na cadeira e aparatei em um
beco próximo ao John Radcliffe, não teria tempo de usar o metro hoje. Olhei no
relógio enquanto corria desesperada para o hospital e vi que já estava mais de
uma hora atrasada. Ela realmente ia me matar, mas não seria a única. Assim que
pus os pés no saguão, esbarrei em minha mãe. Droga! O que ela estava fazendo na
emergência?
- Você está chegando agora ao hospital?
- Eu perdi a hora, ontem foi a despedida de solteiro da Emma
e-
- Artemis também estava na festa e está aqui desde as 7h –
ela me cortou – Ela trabalha o dobro de você, tendo também o estágio no
Ministério e os deveres com o Clã e nunca se atrasa. E eu, que passei pela
faculdade grávida do seu irmão e depois tendo um bebê em casa, nunca cheguei
atrasada a um plantão.
- Desculpa mãe, isso não vai mais se repetir.
- É melhor que não.
Ela saiu andando pelo corredor sem falar mais nada e fiquei
parada sem saber se socava uma parede ou procurava a Dra. Torres. Optei por
procurar minha Atendente, visto que já estava encrencada o bastante. Encontrei JJ
e Arte parados do lado de fora na saída da emergência e só então lembrei que
hoje deveria ser o dia que começava minha rotação com os paramédicos.
- Clara, o que houve? – Arte perguntou preocupada quando me
aproximei.
- Não ouvi o relógio despertar, o que eu perdi?
- Torres está furiosa, Justin teve que ir em seu lugar com
os paramédicos porque eles não podiam esperar você chegar.
- Droga! E agora? Vou ficar mais 21 dias na emergência?
- Fique feliz se sobreviver a Dra. Torres hoje – JJ falou –
Você está com uma cara péssima.
- Obrigada. Nunca mais bebo margaritas.
- LUPIN, o plantão começou às 7h! Onde diabos você estava? –
Dra. Torres gritou do meio do corredor e me lançou um olhar tão furioso que se
fosse feito de laser eu estaria morta. – Não responda, não me interessa. Fará plantão
dobrado hoje.
- Dra. Torres, eu perdi o começo da rotação com os
paramédicos, o que devo fazer? Começo amanha?
- Não, Silverhorn fará a rotação esse mês. Amanhã você começa
na Obstetrícia.
- O que? Mas eu nem me inscrevi pra ela ainda!
- Sua mãe acabou de solicitar seu traseiro sob o comando
dela a partir de amanhã e eu gosto muito da Dra. Storm, não podia negar um
pedido desses – ela me olhou com um sorriso sarcástico no rosto, quase maldoso,
antes de continuar – E se você acha que eu sou ruim, espere até amanhã .
- E quanto a nós, Dra. Torres? – JJ perguntou receoso.
- Hoje vocês estão comigo, amanhã você começa a rotação na Pediatria
e Chronos começa na Psiquiatria.
Ia reclamar, queria protestar por ser jogada para uma rotação
que ainda não queria mesmo que isso levasse a outro esporro, mas o barulho de
uma ambulância entrando no pátio me interrompeu. O que foi bom, porque Arte já
estava me olhando com cara de pavor, implorando sem usar palavras para que eu
calasse a boca. As portas da ambulância abriram e Justin saltou de dentro dela
puxando uma maca. Nela tinha um homem desacordado e a outra paramédica vinha ao
lado, seu braço quase pela metade dentro da barriga do homem. Nós três arregalamos
os olhos e o grito da Dra. Torres nos chamando nos trouxe de volta a realidade.
- Cohen, quero todo o histórico médico desse homem na minha
mão em um minuto! – gritou com JJ e ele assentiu, saindo correndo até a mulher
que berrava enlouquecida no fundo da ambulância – Chronos, reserve uma sala no
centro cirúrgico imediatamente! – e Arte correu em disparada hospital adentro.
- O que eu faço, Dra. Torres? – perguntei atordoada, o braço
daquela mulher dentro do homem estava tirando minha concentração.
- Você me acompanha – respondeu ríspida e olhou para Justin –
Silverhorn, por que essa paramédica está com a mão dentro do meu paciente?
- Eu a aconselhei a não fazer isso, Dra. Torres – Justin se
defendeu.
- Ficha?
- James Carlson, 46 anos, o encontramos inconsciente e
sangrando. Os mecanismos do ferimento são desconhecidos, mas ele tem um ferimento
de sucção grande no peito e uma esposa com pulmões muito saudáveis.
- Sinais vitais?
- Taquicardia nos 140s. Pressão sanguínea estável nos 90s.
- Minha mão foi a única coisa que parou o sangramento – a paramédica
se defendeu – Posso tirar agora?
- Você está com seu dedo em um grande sangramento e o Sr.
Carlson está ficando sem tempo. A única coisa que pode fazer agora é uma viagem
para a sala de cirurgia. Dra. Lupin, prepare-se para transportá-lo até o Centro
Cirúrgico.
- O que você quer que eu faça, Dra. Torres? Já que não vamos
voltar à ronda agora.
- Ajude Cohen a fazer aquela mulher parar de gritar e nos
dizer o que diabo aconteceu!
Justin assentiu e correu para longe do caminho para onde JJ
estava tentando, em vão, se comunicar com a esposa do Sr. Carlson. Os gritos
dela podiam ser ouvidos em toda a emergência e fiquei feliz por entrar no
elevador.
Arte já havia reservado a sala no Centro Cirúrgico e nos
esperava com a equipe para começar a operação quando chegamos. Nos lavamos na
sala de preparação e já estávamos prontas para começar quando a porta da sala
se abriu com violência e um Justin pálido entrou, chamando a Dra. Torres. Eles conversaram
em voz baixa por alguns segundos e logo o semblante no rosto da Dra. Torres
mudou. Ela se virou para a equipe e se dirigiu à paramédica com a mão dentro do
homem com uma calma que eu ainda não havia testemunhado.
- Você, como se chama?
- Susan. Por quê?
- Susan, o ferimento em James Carlson entrou-e-saiu?
- Não, só foi de entrada. Sem saída. Por quê?
- Susan, quero que me diga o que você sente dentro do Sr. Carlson.
O que a sua mão está tocando?
-O que você quer dizer?
- A sua mão está tocando alguma coisa dura? Como metal.
- Eu... Não sei – ela ameaçou mexer a mão e vi a Dra. Torres
perder a cor.
- Não mexa a sua mão. Só me diga o que você sente.
- Dra. Torres, o que está acontecendo? – perguntei já pressentindo
que algo muito ruim.
- Susan? – ela me ignorou.
- A ponta do meu dedo está tocando alguma coisa meio dura.
- Oh, meu Deus – Arte exclamou e tapou a boca com as mãos.
-O que? O que está errado? – Susan começou a entrar em pânico.
- Susan, eu quero que você fique imóvel. Não mexa nem a mão, nem o seu corpo, nem um
centímetro.
- Você deveria saber que está começando a me assustar.
- Não fique assustada .Tudo vai ficar bem.
- Dra. Chronos, você poderia vir até aqui? – ela chamou Arte
na porta da sala – Eu quero que você saia dessa sala - ande, não corra – e vá
dizer a enfermeira encarregada que nós temos um Code Black. Diga a ele que eu
tenho certeza, e também para chamar o esquadrão anti-bombas.
Artemis assentiu e saiu depressa da sala, mas por mais que
eles tenham falado baixo, todos havíamos ouvido a parte do esquadrão anti-bombas.
Houve um pânico inicial na sala, mas a Dra. Torres manteve a calma e pediu que
todos se retirassem, lentamente, ficando apenas ela e Susan, que estava
assustada, mas mantinha a mão imóvel. Só que eu fiquei. Não sei explicar o
motivo, mas não conseguia me mover. A garota era só um pouco mais velha que eu
e estava aterrorizada, sentia que precisava ficar ao lado dela.
E meu instinto se provou certo. Pouco antes do esquadrão anti-bombas
chegar Susan entrou em pânico. Começou a dizer que ia tirar a mão, que era
jovem demais para morrer, e Justin, JJ e Arte entraram correndo na sala para me
ajudar a acalmá-la. Ela ficava cada vez mais descontrolada e chorava
copiosamente, e então tudo aconteceu rápido demais. Até hoje digo que foi meu
instinto de lobo que nos salvou. Susan puxou a mão de dentro do corpo do Sr. Carlson,
correndo sala afora, e todos se atiraram no chão, mas nada aconteceu. Quando
olhei para baixo, estava com a mão dentro dele, segurando a bomba.
O pânico era visível no rosto de todos eles, mas não havia nada
que pudéssemos fazer. O esquadrão anti-bombas finalmente chegou e Otter era o líder
da equipe. Era bom ter alguém em quem confiava no comando daquela situação. Ele
colocou todos para fora, deixando apenas a Dra. Torres e eu na sala. Ela, para
ventilar o Sr. Carlson que precisou ser desligado da máquina por causa do fluxo
de oxigênio, e eu por motivos óbvios. Depois trouxe o aparelho móvel de Raio-X
para que pudéssemos saber com o que estávamos lidando. Mamãe apareceu no
corredor em pânico, mas ele a acalmou e ela não teve alternativa senão se
afastar. Ótimo. Se eu explodisse, minha ultima conversa com ela teria sido uma
briga.
- Então... Eu estou tocando agora em uma munição que não
explodiu? – perguntei depois que ele explicou brevemente a situação.
- Eu receio que sim.
- Não é o melhor sentimento do mundo.
- Eu acho que não. O dispositivo é feito a mão, o que
significa que é instável e muito difícil de confiar. Pode ser uma bomba
falhada, mas não temos como saber.
- Quem constrói uma bazuca e atira no outro? – perguntei tentando
descontrair
- As pessoas não param de nos surpreender com a sua
estupidez. Como isso que você fez. Você tem noção o quão estúpido foi isso?
- Incrivelmente estúpido – Dra. Torres completou.
- Certo, já entendi – disse impaciente – Então você tem um
plano, certo? Você realmente vai me tirar dessa, não é?
- Sim, prima, não se preocupe. Eu sou o cara.
Otter abriu um sorriso, aquele sorriso carismático que não combinava
nem um pouco com o cargo que ele ocupava como líder do esquadrão anti-bombas e
que conquistava qualquer um, e calmamente me explicou qual era o tipo de bomba
que eu estava segurando e todo o procedimento para que ela fosse retirada com
segurança. Depois explicou para a Dra. Torres que ela poderia operá-lo assim
que a bomba estivesse em suas mãos.
- Certo. Vamos revisar de novo.
- O dispositivo tem o formato de um foguete. Tem
aproximadamente 20 cm de comprimento – repeti o que ele havia dito.
- E a minha equipe estará a postos. Então eu vou segura o
dispositivo com firmeza e puxe-o para fora lentamente.
- Mantendo-o no mesmo nível – completei e ele assentiu.
Otter saiu da sala alguns minutos e podia ver que estava
falando no rádio com o resto de sua equipe. Só ele estava próximo da sala, os
outros membros estavam no afastados no final do corredor. Vi ele assentindo
algumas vezes e então voltou.
- Nós estamos prontos.
- Clara? – Dra. Torres me chamou – Eu vou abrir o ferimento.
Quando eu cortar, o sangramento vai fica intenso. Se nós vamos salvar o Sr.
Carlson, Você tem que tirar a munição imediatamente.
- Mas lembre-se, remova-o mantendo-o no mesmo nível possível
– Otter lembrou e assenti – Com calma e devagar, sem movimentos rápidos.
- Certo, no nível.
- Você está pronta?
- Eu tenho alguma escolha?
- Você tem que estar pronta.
- Eu acho que estou pronta.
- Certo, vamos lá. Coloque a sua mão ao redor do nariz do
cone.
- Hiro, ele acha que nunca vou me casar com ele – disse de
repente.
- Clara?
- Não é verdade, eu adoraria me casar com ele, mas não agora
nem tão cedo. Não estou pronta. Pode dizer isso a ele?
- Clara, você vai ficar bem, pode dizer você mesma.
- Não, você tem que me garantir que vai dizer isso a ele! –
minha voz estava saindo do controle, eu estava em pânico.
- Ok, tudo bem, eu digo a ele.
- Eu-eu não posso. Não. Eu não posso. Isso é loucura. Dra.
Torres, você precisa ir embora. Vocês dois devem ir. Você vai se casar essa
semana.
- Ninguém vai morrer hoje, Lupin.
- Clara, eu quero que você olhe pra mim. Eu sei que é ruim. Isso
é um saco, mas você não vai morrer. Mas você precisa me ouvir.
- Estou com medo
- Eu sei. Mas você pode fazer isso. Vai acabar em um
segundo.
- Tudo bem.
- Certo. Então vamos lá. Devagar – Otter se aproximou mais e
comecei a mover a mão lentamente – Isso, muito bem, só mais um pouco.
Puxei a mão toda para fora e fazendo um esforço enorme para não
tremer, entreguei a bomba na mão dele. “Você se saiu bem” foi a última coisa
que ele disse antes de sair da sala, ainda com aquele sorriso contagiante no
rosto me encorajando. Assim que ele saiu a Dra. Torres começou a operar o Sr.
Carlson e meu corpo inteiro começou a tremer, nem que ela tivesse solicitado
minha ajuda eu seria capaz de fazer alguma coisa. Graças a Merlin nos minutos
finais Otter tinha autorizado a entrada da chefe das enfermeiras e do
anestesista.
Ainda tremendo, caminhei até a porta da sala para ver meu
primo caminhando com a bomba pelo corredor, mas assim que pus os pés do lado de
fora e vi Otter de costas, uma explosão ensurdecedora fez todo o andar tremer e
me lançou para trás. Minha cabeça bateu no chão com a força do impacto e
apaguei.
N.A.: Trechos de diálogos
retirados de Grey’s Anatomy, “It’s the end of the world” e “As we know it”.
Epílogo
Londres, março de 2027
Tive que passar por uma revisão médica da Marinha e
acabei indo mais tarde para o trabalho. Fui levar meu atestado para Elena, e
quando bati na porta da sala dela, ninguém respondeu, até iria embora, quando
ouvi um espirro. Abri a porta e me abaixei rápido, antes que um objeto
macio me acertasse e isso fez com que ouvisse uma risada infantil:
- Ah não era a mamãe, você não vai ficar brabo com Horacio
não é?- disse uma menina de uns 5 anos, que reconheci como sendo a filha de
Lena, Sophie.
- Eu zangado com este macaco voador? Não, estou é curioso em
saber como consegue voar sem asas? – ela riu e naquela hora sabia que estava
perdido.
- Você é novo aqui? Não te conheço...
- Sou Julian McGregor, trabalho com sua mãe.
- Ah você é o filho do tio Ty??Você se parece com ele, só é
mais bonito, e ele me cobre de presentes, adoro ele. Sabia que Selene é uma das
minhas melhores amigas de todo o mundo? Mas você é tão mais velho que
ela...Quer brincar um pouco?? Mamãe teve que ir se trocar porque eu passei mal
e sem querer vomitei meu suco nela...O café da manhã não caiu bem e estou
esperando Dana, minha babá, vamos ficar de moleza em casa hoje.Como vou chamar
você?Julian ou tio?
-Uau! Como você fala...E pode me chamar de Julian. E se você
esta ruim do estômago devia ficar deitada não é?
- Já descansei, quero brincar um pouco, joga comigo?-
comecei a negar com a cabeça mas ela me deu um olhar tão desamparado, que
automaticamente assenti concordando e começamos a jogar Uno e ela era muito
esperta. Lena voltou uns minutos depois e nos encontrou jogando:
- Sophie, Dana chegou. - E a garotinha jogou as cartas para o alto, correndo para abraçar sua mãe e falava rápido:
- Mãe, olha só meu novo amigo, Julian. Ele é tããão legal,
sabe jogar, montar a cavalo e gosta de contar piadas e adora os livros do tio
Rup, você devia sair com ele, e ele é mais bonito que o tio John. E na próxima
festa no rancho serei a convidada especial dele. - Lena ficou pálida e disse:
- Soph, fico feliz que você tenha feito um novo amigo, mas
agora você precisa ir e de noite conversamos mais ok?- ela assentiu e antes de
ir correu de volta e me deu um abraço apertado:
- Gostei de conhecer você e se um dia você quiser me visitar
em casa você pode ir ok? Minha mãe deixa Dana servir pipoca aos meus amigos
quando vemos filmes. Você vai?
- Sim, eu vou.- respondi rindo e ela:
- Promete?- assenti e ela correu para a mãe que me olhou
séria e disse antes que eu abrisse a boca:
- McGregor, a equipe já esta se reunindo, hoje está
tranquilo e vamos fazer patrulha.- assenti e até pensei que Lena fosse falar
alguma sobre a sua filha mas o resto do dia foi como todos os outros,
parecíamos dois estranhos.
Final de Abril 2027
Voltar para Londres e trabalhar com Elena não havia sido uma
decisão fácil. Quando ela me viu com o uniforme da equipe perto do chefe dela,
sua primeira reação foi de espanto, mas depois pude ver o ressentimento em seus
olhos e embora eu duvidasse, pensei que o tempo e nossa convivência pudesse resolver
e voltarmos a ser amigos, mas me enganei. Éramos profissionais, mas não havia o
antigo companheirismo de antes. E sem querer isso estava afetando a equipe,
pois eles ficavam em alerta a cada vez que nossas reuniões começavam, esperando
pra ver quem venceria a discussão, pois embora Elena fosse a líder do time,como
snyper eu seria o líder tático, encarregado de preparar a equipe para uma
entrada forçada e em alguns casos interferir na negociação. De forma resumida:
Elena conversava e tentava manter a paz e se eu percebesse algum risco ao refém
ou à equipe, não precisava esperar a ordem dela para atirar. Naquela sexta
feira, ao meio dia tivemos um chamado em que um atirador de origem búlgara,
após matar a ex esposa, estava com uma refém em uma praça da cidade, e Lena estava
a uma certa distância negociando com o suspeito, eu dava cobertura de cima do
telhado, e ouvia a negociação pelo meu fone de ouvido, quando o homem se
enfureceu com ela por pedir novamente que soltasse a refém, ele apontou a arma disposto
a atirar, e foi ouvido um disparo, mas quem caiu morto foi o homem com um tiro
na testa. Eu atirei! Vi quando Elena tirou o fone do ouvido e o jogou no
chão.
Como é padrão em caso de disparo de nossas armas, fiquei
incomunicável, enquanto uma equipe da Corregedoria da Scotland Yard tomava meu
depoimento, recolhia minhas roupas e minha arma para verificação. E isso
demorou horas, e quando fui dispensado tarde da noite, fui direto para o hotel
aonde eu estava morando desde o meu retorno.
Mal entrei no quarto, ouvi uma batida na porta e quando abri
Lena entrou muito irritada.
- Você não devia ter atirado...Eu não havia autorizado.
- Isso não é você quem decide, sou eu e atiro em qualquer suspeito que apontar uma
arma para você ou de qualquer membro da equipe.Por melhor que você tenha sido,
você nunca o alcançou, ele só não te acertou porque eliminei a ameaça antes.
- Suspeito, ameaça, você sequer sabia o nome dele....Você
não se conecta com os suspeitos e isso é importante neste trabalho, por mais
que você não aceite sou eu que mando nesta unidade.
- Não tenho problema algum com a sua autoridade. E ele era Josip
Tesla, 54 anos, bulgaro, desempregado, residente neste país há cinco anos,
divórcio homologado pela corte, devido a
violência doméstica.E ele já não tinha mais nada a perder, só queria levar mais
gente com ele.Quer saber? Vou facilitar as coisas sargento, vou pedir
transferência pois é você quem não gosta de trabalhar comigo, tem medo de não
ter o controle.
- Que merda, Julian, você não sabe conversar? Quando as
coisas ficam dificeis você corre? Porque isso não me surpreende, foi assim
quando nos separamos, bem aqui neste quarto...- e foi como se eu levasse um
soco:
- Foi você quem foi embora...- respondi sério e ela rebateu:
- E foi você quem não me impediu.
- O que eu podia fazer? Você queria ficar com o Slater,
escolheu a ele, não podia te obrigar a ficar, afinal nosso acordo era de sexo
sem compromisso, e foi sua idéia diga-se de passagem.
- Se houvesse amor entre nós, não teria sido assim.
- Amor? Eu te amei tanto que aceitei suas condições e as
suas decisões, mas toda vez que eu começava a falar em algo mais sério, você
pulava fora. Não era eu que tinha problemas com situações difíceis.
- Você não podia assistir a um casamento que ficava
possessivo, sonhava acordado. E nós tinhamos as nossas carreiras para cuidar. Seria
absurdo casarmos.
- Absurdo se fosse comigo não é? Mas o que você fez quando
saiu da Academia? Casou-se com o Jeff, sem ouvir ninguém.Fale a verdade, o
problema era eu.
- Você foi para a guerra...
- Fui convocado,e você sabia que eu iria para lá em algum
momento, sou fuzileiro.
- Sim, você é um fuzileiro até seu último suspiro, então de
qualquer forma você não estaria comigo. Nunca esteve, nem mesmo quando Jeff
morreu.
- Não podia sair de onde eu estava para vir enterrar seu
marido, sempre nos detestamos.
- Por isso mesmo você devia ter voltado, não por ele, mas por
mim, eu estava livre dele.
- Mas eu não podia vir...
- Claro que você não podia, tinha que ficar com os seus
soldados, ensina-los a matar mais rápido, eu não importava...- disse gritando e
eu não me segurei:
- Não pude vir porque tive que recolher os pedaços do
Cassillas para mandar num saco preto para a familia dele.Ele foi burro o
bastante para pisar numa mina para me salvar. - gritei de volta e ela arregalou
os olhos:
- Oh Julian...Eu não sabia...Acho que ninguém soube.-
ficamos nos encarando por alguns segundos e ela disse dando um passo na minha
direção:
- Não posso me envolver com você, por isso tenho mantido
distância. Sou sua chefe e muito tempo se passou...
- Quero me envolver com você, e não vou acusa-la de assédio.E
ver você depois deste tempo todo só me fez ter certeza de que quero uma chance. – disse dando outro passo e ficando bem perto dela.- e continuei:
- Falei sério quando disse que pediria transferência, posso
me adaptar em qualquer lugar.Não vou prejudicar a sua carreira.-e ela frisou:
- As nossas carreiras seriam prejudicadas...Mas eu não posso
me jogar num relacionamento, tenho que pensar em minha filha, sempre vai ser
assim, é bom que saiba que ela virá primeiro sempre.
- Gosto da sua filha e ela também gosta de mim, afinal sou muito
mais bonito que o tio John. Sério que você saiu com o Weasley?- provoquei e ela cutucou meu peito e segurei
sua mão e ela não puxou de volta:
- John é um amigo, tomamos uns drinks, apenas isso... As
pessoas não podem saber sobre nós...
- Isso nos afastou uma vez, Lena.- disse franzindo a testa e
me afastando e ela respondeu me puxando pela camisa:
- No trabalho não podem saber, ou seremos suspensos e a equipe
dividida, mas nossos amigos e a família sim, pensaremos numa solução ok?Prometo.
- olhei para ela e quis saber:
- Pode ficar esta noite?
- Achei que não fosse pedir.- nos beijamos enquanto eu a
erguia nos braços como nos velhos tempos e a levava para a cama.
Alguns meses depois, Elena e Sophie viajaram de férias para Washington para visitar nossa amiga Amber e foi ela que sem querer deu a solução para o nosso problema.
Cause I don't
wanna lose you now
I'm lookin'
right at the other half of me
The vacancy
that sat in my heart
Is a space that
now you hold
Show me how to
fight for now
And I'll tell
you, baby, it was easy
Comin' back
into you once I figured it out
You were right
here all along
It's like
you're my mirror
My mirror
staring back at me
I couldn't get
any bigger
With anyone
else beside me
And now it's
clear as this promise
That we're
making
Two reflections
into one
Cause it's like
you're my mirror
My mirror
staring back at me
Staring back at
me
You are, you are the love of my life
Nota da autora: trecho de Mirrors de Justin Timberlake
Epílogo
Washington, D.C., Agosto de 2027
Washington, D.C., Agosto de 2027
Era um dia de céu azul e temperatura agradável quando deixei
meu flat para encontrar Elena e Sophie no topo do Washington Monument. Era a
última semana de férias de Sophie e elas estavam aproveitando para ter uma
viagem de mãe e filha. No entanto, aquela também era uma viagem de negócios.
Elena sabia que eu tinha algo importante para discutir com ela sobre trabalho,
mas como me recusei a falar por telefone ela não teve alternativa senão esperar
até o nosso almoço naquela tarde.
Estavam as duas olhando a vista do alto do obelisco quando
cheguei. Aquela vista sempre me impressionava, mesmo já tendo a admirado
inúmeras vezes. Era possível ver boa parte da cidade lá do alto, incluindo meu
lugar favorito: os arredores do Rio Potomac. Sempre que precisava lembrar
porque estava tão longe de casa, subia até o topo do obelisco e olhava a cidade
à minha frente.
- A vista é incrível, não? – disse me aproximando e as duas
viraram ao mesmo tempo. Elena abriu os braços para me abraçar.
- Ah Becks, que saudade! – ela disse me abraçando apertado
antes de me soltar para que eu pudesse abraçar Sophie.
- Também sinto muita falta de vocês. E ai, Soph, está
gostando da cidade?
- Muito, tia! O que mais gostei foi o Smithsonian! Podemos
nos mudar pra cá, mamãe? – ela perguntou com um sorriso esperançoso e Elena
revirou os olhos – Sinto falta da tia Amber e ela mora aqui.
- Talvez não por muito tempo, querida.
- O que quer dizer com isso? – Elena perguntou me olhando
desconfiada.
- Que tal aquele almoço agora? Estou faminta!
- Amber Katherine Brennan Beckett, o que está acontecendo?
- Almoço, meninas! Teremos tempo o suficiente para conversar
no restaurante.
Elena protestou mais um pouco, mas foi obrigada a desistir e
seguir Sophie e eu até o restaurante no Capitólio. Seria uma tarde longa e
divertida.
°°°°°°°°°°
Connecticut, Yale
University, Setembro de 2027
O auditório onde a aula de simbologia acontecia estava
apinhado de alunos, todos compenetrados e absorvendo cada palavra dita pelo
professor em pé lá na frente. Um professor tão jovem que poderia facilmente ser
confundido com um dos alunos.
Sentei em uma poltrona vaga na última fileira e aguardei até
que a aula chegasse ao fim. Estava tão interessante que apenas me dei conta de
que já tinha terminado quando os alunos começaram a se levantar.
- Aula excelente, professor Hofstadter – disse levantando e
Patrick se assustou ao ouvir minha voz.
- Amber? Está perdida em Connecticut? – disse surpreso, mas
sorriu enquanto eu descia as escadas do auditório.
- Não, estou exatamente onde queria estar – disse o
abraçando – Como está?
- Estou ótimo e você? Não a vejo desde a sua formatura na
Academia. O que é quase o tempo que não vejo Penny.
- Sem noticias dela ainda?
- Às vezes ela dá sinal de vida, mas é raro. Acho que não
seria chamado de Serviço Secreto se ela estivesse sempre em contato, não é?
- É, acho que não.
- Mas você não veio até aqui para saber da minha irmã.
- Não, vim até aqui para lhe fazer uma proposta.
- Estou ouvindo.
- Você dá aula de simbologia, sendo o professor mais
requisitado de Yale, e se sua ficha estiver correta, tem um Doutorado em Psicologia Criminal.
Correto ?
- Sim, correto.
- Estou precisando de alguém com essa experiência em
Londres.
- De volta à Londres? Não sei... Minha vida aqui é muito
boa, não estava nos meus planos voltar tão cedo.
- Deixe-me pagar seu jantar hoje e garanto que vai mudar de
idéia. Topa?
- Se tem algo que eu nunca recuso é comida de graça.
Patrick sorriu e terminou de juntar os papéis que estavam espalhados
pela mesa, me acompanhando para fora do auditório.
°°°°°°°°°°
Cairo, Egito, Outubro
de 2027
Quando desci do avião, dois dias antes no aeroporto do
Cairo, por um instante desejei nunca ter pisado no Egito. O calor era tão
intenso que teria derretido minha maquiagem, caso estivesse usando alguma.
Perguntei-me de imediato como ele estava sobrevivendo em uma temperatura tão
quente como essa por tanto tempo.
O bar sujo e isolado onde combinamos de nos encontrar ficava
em uma região perigosa, mas nada que o distintivo do FBI bem escondido em minha
bolsa não pudesse me ajudar a resolver. Ele não estava lá quando cheguei, então
me acomodei na mesa que fui instruída a ocupar – imediatamente lançando um “abaffiato” por debaixo dela para que
pudéssemos conversar em paz – e cinco
minutos depois Oleg entrou pela porta. Vestia um casaco com um capuz que
escondia parte de seu rosto, mesmo debaixo daquele sol todo, e com certeza
estava derretendo debaixo dele.
- Quer dizer que agora está com os Federais? – disse
sentando-se à minha frente – Foi para o lado negro da força.
- Se não pode vencê-los, junte-se a eles.
- Você mereceu isso. Lembro bem do quanto ralou para se
destacar entre os outros detetives.
- Você também trabalhou duro.
- Todos nós ralamos. Só os abduzidos pela CIA se dão bem
logo que saem da academia.
- Ah, é verdade. Os Escolhidos. Esses vão direto para o topo
da cadeia alimentar.
Rimos lembrando os amigos que haviam desaparecido logo
depois da formatura e depois o silencio tomou conta da mesa. Oleg e eu nos
formamos em turmas diferentes, mas fomos parceiros na NYPD por cinco anos. Era
a primeira vez que nos encontrávamos depois que nos separamos.
- Senti sua falta. Lembra quando ficávamos revoltados porque
o FBI chegava à delegacia levando todas as nossas coisas?
- Ah se lembro! Eu queria assassinar alguém.
- Foi por isso que você trocou de lado?
- Também. A oferta era irrecusável. E você já tinha me
abandonado, não tinha mais nada me prendendo a NYPD.
- Eu não abandonei ninguém, só queria fazer algo novo. Narcóticos
é bem diferente de Homicídio, mas eles continuam roubando nossos casos, isso
não mudou.
- Bom, tenho uma oferta de emprego a fazer. O que acha que
não ter mais casos confiscados e se juntar ao lado negro da força?
- Gata, se essa oferta vai me tirar desse deserto, já estou
topando sem nem saber o que é.
- Há quanto tempo está infiltrado aqui?
- Longos 18 meses.
- A oferta é em Londres. Seu treinamento em desarmamento de
bombas e especialidade em lingüística serão muito bem vindos em um escritório
com ar condicionado.
- Vou precisar usar terno?
- Essa é sua única ressalva? – perguntei rindo.
- Você me ganhou em oferta de emprego, mas ternos me
sufocam.
Começamos a rir e expliquei a Oleg o que o trabalho exigia.
Sua operação terminava em dois meses, tempo suficiente para que estivesse em
Londres antes do natal. Quando nos despedimos e ele voltou para o apartamento
onde estava morando, sabia que podia contar com meu velho parceiro.
°°°°°°°°°°
Boston, Massachusetts,
Outubro de 2027
Minha primeira semana de férias do trabalho depois de um ano
foi gasta em Boston, durante uma visita de Kaley e James à família dela. Era
também a primeira viagem de Michael aos Estados Unidos e eu estava louca de
ansiedade para conhecer meu afilhado, que havia nascido em abril e até então eu
só havia visto por fotos e Skype.
Michael era o bebê mais fofo do mundo. Gordinho, bochechas
redondas e rosadas e um sorriso adorável que fazia todo mundo suspirar. Seu
cabelo era loiro como o de Kaley, mas seu rosto era todo James. Eu não
conseguia soltá-lo, eles mal conseguiram segurar o filho naquela semana. Quando
ele não estava sendo disputado pela avó e tias, estava no meu colo brincando
com meus brincos e se safando com aquele sorriso lindo.
Zack também estava na cidade naquela semana. Sua agenda com
o New England Patriots era apertada, mas ele conseguiu alguns dias de folga
para rever a irmã e, assim como eu, conhecer o afilhado. Ele também estava
aproveitando a visita para apresentar a namorada à familia, uma modelo muito
bonita e famosa, mas que era tão simpática e simples que em cinco minutos
quebrou todo e qualquer preconceito que pudéssemos ter com sua profissão. A
casa ficou um caos com os dois na cidade, todo mundo apareceu para vê-los e de
uma hora pra outra estava no meio de uma grande e improvisada reunião de
família. E Michael logo provou ser um verdadeiro Walker, lidando muito bem com
todos os parentes barulhentos apertando suas bochechas e sorrindo e gargalhando
para todos que vinham arrancá-lo do colo de alguém.
Assim como Elena, Kaley e James sabiam que eu queria
conversar com eles, mas diferente dela, tinham uma boa idéia do que era. Saímos
para jantar na terceira noite. Michael ficou com Zack e a namorada, que
insistiram para ficar tomando conta do bebê, e como Kaley estava louca para que
o irmão lhe desse um sobrinho, não fez nenhuma objeção. Ela escolheu um
restaurante indiano no centro de Boston e assim que ocupamos nossa mesa próxima
da janela, com uma linda vista da cidade, James tocou no assunto.
- Então, quando vai nos contar o que exatamente está
tramando?
- Não estou tramando nada, apenas tentando reunir os
melhores.
- Ok, chega de enigmas, bota pra fora – Kaley disse
impaciente e rimos.
- Certo. Vocês já sabem que Micah me ofereceu um trabalho em
Londres, certo? – eles assentiram e continuei – Ele disse que eu deveria montar
uma equipe de profilers e seria a responsável por ela na Scotland Yard. O
Tenente Sanders é o diretor, mas eu seria a líder da equipe.
- Sim, essa parte nós sabemos. O que mais?
- Nos últimos meses viajei para juntar a equipe, cada um com
uma especialidade diferente. Elena é a chefe de uma equipe de negociadores, tem
experiência de sobra na área. Oleg é fluente em tantas línguas que não consigo
contar e tem experiência em desarmamento de bombas. Patrick tem um doutorado em
psicologia criminal e dá aula de simbologia em Yale. – fui listando e eles
pareciam animados com os nomes – Agora estou pedindo aos dois que façam parte dessa
equipe. Você, James, com sua experiência dando aula de criminologia na academia
da Scotland Yard, seu diploma em direito e sua formação na marinha. E você,
Kaley, com seu diploma em Publicidade, como nossa assessora de imprensa.
- Amber, isso é... Uau. Não sei nem o que dizer – James
ficou sem reação.
- Eu não tenho experiência com perfil. Sim, fiz aquelas
aulas quando ainda estávamos na academia do FBI, mas não dei continuidade a
isso.
- Não tem problema, você vai lidar apenas com a mídia.
Selecionar os casos que vamos trabalhar e cuidar das conferencias de imprensa
que vêm com eles. Claro, você teria que passar pelo teste de tiro, caso precise
ir ao campo em algum caso, mas não precisa ter experiência em perfil.
- O que acha, meu amor? – James olhava para ela animado – É
uma oportunidade e tanto e trabalharíamos juntos. Você tem reclamado que quase
não nos vemos mais.
Eles se encararam por um momento, então abriram um enorme
sorriso e começamos a rir. Sim, eu podia contar com eles.
°°°°°°°°°°
Amsterdã, Holanda –
Novembro de 2027
Descobrir qual seria meu destino final foi uma das tarefas
mais complicadas que encontrei nos meus sete anos de formada. E mais difícil de
achar sua localização foi convencer Emma de me encontrar em um café movimentado
à luz do dia.
Ela já me esperava quando cheguei na hora marcada. Ocupava
uma mesa no canto da calçada e mesmo parecendo distraída com o fone no ouvido e
encarando fixamente a tela do laptop, sabia que estava atenta a tudo e todos ao
seu redor. Tanto que assim que me aproximei ela levantou os olhos para me
encarar. O olhar era desconfiado, mas o
sorriso foi sincero.
- Como diabos você me encontrou?
- O FBI tem seus métodos, mas não foi fácil.
- Você colocou meu nome no banco de dados do FBI? Eles agora
sabem onde estou? – ela ameaçou levantar, mas a segurei pelo braço.
- Você não corre perigo algum, eles estão dispostos a abrir
uma exceção.
- O FBI não abre exceção para hackers que invadiram o
sistema deles.
- Abrem se você colaborar com eles.
- Não vou trabalhar para eles, não me peça isso.
- Não estou pedindo para trabalhar para eles, estou pedindo
para trabalhar para mim.
Emma me fitou por alguns segundos sem dizer nada. Embora
ainda sustentasse o olhar desconfiado, sabia que estava considerando a
possibilidade.
- O que exatamente está me pedindo?
- Estou montando uma equipe de profilers para trabalhar na
Scotland Yard. Eu vou chefiar a equipe, vocês vão reportar apenas a mim,
ninguém mais. Com o chefe mesmo, eu me entendo e me responsabilizo.
- Eu não sou uma profiler.
- Já tenho muitos profilers, preciso de um hacker com
experiência em ciência forense.
- Existem outros hackers.
- Não preciso de alguém que conheci através de uma ficha,
preciso de pessoas em quem confiaria minha vida. Pessoas que já se conheçam e
confie uma nas outras. Preciso de você, Emma. Não confio em mais ninguém para o
trabalho.
- Não posso ajudá-la daqui? Se for trabalhar em um
laboratório não preciso acompanhar vocês no campo.
- Não está cansada de fugir?
- Você também fugiu.
- E agora estou disposta a voltar. E quanto a você?
Ela se calou outra vez, refletindo. Estava longe da
Inglaterra há muito tempo, era inevitável sentir saudades. Sabia que, embora
não quisesse admitir, Emma pensava em voltar.
- Não pode fugir do passado para sempre. Nem você e nem eu.
Uma hora temos que encarar o que ficou para trás.
- É mais fácil para você encarar o passado.
- Sei que para você é mais difícil, mas não vai estar
sozinha.
- Quando exatamente isso precisa acontecer? – ela tentava
rir para relaxar, mas ainda estava tensa.
- Preciso da equipe reunida em Londres antes do natal. Temos
que estar prontos para trabalhar no dia 1º de janeiro.
- E não vou ser presa assim que pisar em Heathrow?
- Não vai acontecer nada, tem passe livre.
- E quanto ao Serviço Secreto? Tenho passe livre também?
- Depois de invadir o sistema deles procurando por teorias
da conspiração e plantar um vírus? Não força – ela riu – Então? Posso contar
com você?
- Pro inferno com Amsterdã, já estou enjoada de stroopwafel
mesmo.
Ela estendeu a mão, mas quando apertei para selarmos o
acordo ela levantou e me puxou para um abraço apertado. Seria difícil para ela
voltar e, inevitavelmente, reviver os eventos de quase 10 anos atrás, mas Emma
era forte e não deixaria isso a abalar.
E agora que eu tinha uma equipe com pessoas em quem tinha
total confiança, sabia que também estava pronta para voltar para casa.
I'm going home back to the place where I belong
Where your love has always been enough for me
I'm not running from
No, I think you've got me all wrong
I don't regret this life I chose for me
But these places and these faces are getting old
So I'm going home
Where your love has always been enough for me
I'm not running from
No, I think you've got me all wrong
I don't regret this life I chose for me
But these places and these faces are getting old
So I'm going home
Queria poder dizer que 2019 estava sendo um ótimo ano, com
Nick conseguindo a guarda das crianças, Clara começando o estágio no hospital
trouxa, Becky e Connor pensando em ter filhos e meus livros cada vez mais
famosos, mas a verdade não era exatamente essa. Enquanto algumas coisas iam
bem, outras estavam uma bagunça. E quando digo bagunça, quero dizer caos.
O efeito dominó teve início em abril. Amber começou
um projeto para a aula de Ciência Forense onde coletou amostras de DNA de seus
pais adotivos e pretendia comparar com seu próprio sangue para provar que as
pessoas podem ter semelhanças mesmo que não compartilhem a mesma genética. O
problema surgiu quando a amostra de sangue de seu pai adotivo mostrou que eles
tinham um grau de parentesco. Pelos testes que foram feitos depois que ela
informou a descoberta ao Tenente Sanders, a conclusão que chegaram foi que ele
era tio dela.
Amber ficou tão possessa que dava medo e a incapacidade do
homem de dar as respostas que ela queria só piorou tudo. A coisa saiu tanto do
controle que Wes foi forçado a tirar ela do caso. Ela argumentou, bateu boca
com o Tenente – e quase foi expulsa da Academia por isso – mas a história era
muito mais complexa que um simples caso de desaparecimento e ela foi obrigada a
aceitar que não podia mais fazer parte da investigação. E as poucas respostas
que Jeremy Beckett conseguiu responder só reforçaram ainda mais a teoria de que
os pais de Amber trabalhavam para o Serviço Secreto.
Depois que foi retirada do caso, Amber meio que surtou. Ela
não conseguia deixar o assunto de lado e continuou uma investigação por conta
própria, desobedecendo às ordens do Tenente. E quando tentei fazer com que ela
parasse, tivemos uma briga de proporções épicas. A discussão foi tão feia que
ela saiu do loft batendo porta e se escondeu no dormitório da quartel pelo
resto do mês de maio, com a desculpa de que tinha coisas demais para estudar.
Depois de um tempo parou também de atender minhas ligações e eu acabei desistindo.
Já estava ficando atrasado com o deadline do livro e precisava me concentrar.
Quando ela quisesse conversar, e pedir desculpas, sabia como me encontrar.
Ela me procurou outra vez no começo de junho, assim que o
semestre na academia terminou. Estava irritado com alguns detalhes do livro que
não estavam me agradando quando ouvi a campainha tocar e dei de cara com ela
quando abri a porta. Não tinha a melhor das expressões no rosto, mas também não
esperava que fosse reaparecer depois de um mês soltando rojões.
- Ah, então você lembra onde eu moro – não me contive e ela
ameaçou ir embora, mas segurei seu braço – Estou brincando. Por que não usou
sua chave?
- Não sei onde deixei. Rup, sinto muito. Não devia ter
falado com você daquela forma, muito menos ido embora e ignorado suas ligações.
- Não, não deveria. Só estava fazendo o que me pediu,
lembra?
- Sim, eu lembro.
Ficamos em silêncio alguns segundos e ela se aproximou para
me abraçar. Seu corpo estava tão tenso que ela não conseguia relaxar.
- Preciso contar uma coisa a você e espero que me entenda –
ela se soltou do abraço e sentamos no sofá.
- O que aconteceu?
- Consegui uma vaga no projeto para concluir o curso fazendo
o ultimo ano na academia do FBI em Quântico.
- Quântico, Virginia? Nos Estados Unidos? – ela assentiu – E
você vai? É claro que você vai.
- Eu preciso ir. Além de ser uma oportunidade única, preciso
me afastar das coisas por aqui.
- Eu também estou entre as coisas de que você precisa se
afastar?
- Não, você é uma das poucas coisas que quero por perto.
- E como isso pode acontecer se está indo embora? Virginia
não é nem em outro país, é em outro continente!
- Quero que venha comigo.
Por um instante eu considerei. Juro que por alguns segundos
pensei “que se dane, vou embora com ela para outro continente”, mas a razão
veio mais rápido que gostaria. Como eu poderia simplesmente me mudar para tão
longe, quando ainda tenho um contrato de mais cinco livros que me prendem ao
Reino Unido?
- Não posso ir.
- Por que não? Você pode escrever de qualquer lugar.
- Não posso, não enquanto ainda estiver escrevendo Harry
Potter. Tudo que preciso para terminar eles está aqui e tenho uma infinidade de
eventos marcados.
- Você não pode voltar para cá nas datas deles?
- Gabriel vai me matar. Minha editora é aqui, se disser a
ele que vou me mudar para tão longe, ele vai me matar. Preciso ficar aqui pelo
menos até terminar a série.
- Isso são mais cinco anos.
- Mas eu iria. Iria com você para onde pedisse.
- Eu realmente preciso ir.
- Eu sei. Lembro que falou sobre esse projeto quando ainda
estávamos em Hogwarts. Só
pensei que, depois que começamos a namorar, você fosse querer ficar aqui.
- Não posso ficar aqui, não agora. Tenho medo de voltar a
ser aquela pessoa do mês passado estando tão perto da investigação.
- Eu posso ajudar você com isso, não vou deixa-la voltar ao
estado em que estava.
- Você não pode me ajudar, viu o que aconteceu quando
tentou. Vou acabar afastando você outra vez.
- Você já está me afastando.
- Rup, não torne isso ainda mais difícil do que já é.
- Desculpa, mas minha namorada, se é que ainda posso dizer
que tenho uma, vai embora por e espera que eu ache que não tem nada demais
nisso – ela levantou do sofá e começou a caminhar na direção da porta – Ah, vai
fugir de novo!
- Vou embora porque não vim aqui com a intenção de brigar.
Conversamos outra hora.
- Se conversar outra hora significa apenas adiar o
inevitável, vamos poupar tempo. Nosso namoro acabou, está livre para ir para
onde quiser sem remorso.
Amber ficou parada onde estava sem reação e caminhei até a
porta, a abrindo e esperando que ela saísse. Esperava que ela dissesse algo, me
xingasse, batesse, qualquer coisa para revidar minha resposta ríspida e
estúpida, mas não fez nada, apenas caminhou até a porta. Ela me encarou de
frente antes de sair e deixou um suspiro escapar antes de me abraçar. Não
queria abraçá-la de volta, mas nem mesmo toda a força de vontade do mundo teria
me impedido. Abracei-a tão apertado que é provável que a tenha machucado, mas
ela não reclamou, pois me apertava com a mesma intensidade.
- Eu amo você – disse em meu ouvido – E eu vou voltar.
Ela se soltou do abraço e sem me encarar outra vez
desaparatou na minha frente. Ainda continuei na mesma posição, com a porta
aberta encarando o corredor vazio por alguns minutos. Quando a ficha do que
tinha acabado de acontecer finalmente caiu, a sensação que tomou conta de mim era
a pior do mundo. Era a sensação de quem tinha acabado de deixar o amor da sua
vida escapar.
Amber foi embora para
Los Angeles uma semana depois, para passar o verão com o irmão. Ela começou o
último ano de treinamento no FBI junto de Kaley, James, Julian, Elena e Penny
em setembro. A promessa de que voltaria foi cumprida, mas apenas nove anos
depois.
Catch myself
From despair
I could drown
If I stay here
Keeping busy everyday
I know I will be OK
From despair
I could drown
If I stay here
Keeping busy everyday
I know I will be OK
Out of Reach – Gabrielle
Londres, janeiro de
2019.
Desde que tomei a decisão de sair da banda e me dedicar
somente ao trabalho de detetive, minha vida havia se tornado ainda mais
corrida. Para compensar a perda de um integrante, e também o ano de folga que
toda a banda tiraria, a carga de shows aumentou e o tempo para fazer qualquer
outra coisa ficou ainda mais escasso. Eu não sabia o que era uma noite de sono
de mais de quatro horas há meses.
Mas apesar de todo o cansaço do trabalho em excesso, o
processo para a adoção de Austin e Molly corria muito bem. O juiz de inicio não ficou muito satisfeito
com a idéia de me dar a guarda de duas crianças, mas com o tempo foi percebendo
que eu não estava tomando aquela decisão por impulso e falava sério quando
dizia que queria ser pai deles. Ele ainda não havia tomado uma decisão
definitiva, mas meu advogado me garantiu que eu ia ganhar a batalha. Segundo
Brianna, o fato dele ter autorizado as crianças a passarem o natal comigo era
um sinal positivo. Agora era só uma questão de tempo.
Com a minha saída da banda oficializada e todos os meus
compromissos com ela encerrados desde o dia 1º, agora me dedicava somente à
delegacia. E naquela semana, convidado pelo Tenente Sanders, estaria de volta à
Academia de Aurores auxiliando em uma aula de Ciência Forense. Antes das 8h já
estava no saguão do quartel esperando. Emma chegou pontualmente às 8h e
seguimos para a sala de aula.
- Pronta? – perguntei animado. Era a primeira aula dela.
- Sim, pronta. Aí vêm eles.
Os alunos começaram a entrar na sala e reconhecia a maioria
deles de Hogwarts, calouros do ano que eu era um veterano. E claro, entre eles
rostos mais que familiares como Julian e Lena que eram praticamente da família
e Kaley e Amber. A surpresa estampada no rosto deles quando me viam na sala era
evidente, mas ninguém fez nenhuma pergunta.
- Bem vindos – Emma falou animada – Meu nome é Emma
Blanchard. Não, desculpe, Emma Sciuto. Mudei recentemente, ainda preciso me
acostumar. Sou recém-formada em ciência forense pela academia do FBI e vou dar
aula para vocês esse semestre. E este é Nicholas O’Shea, como acho que todos já
sabem, detetive da Scotland Yard que vai me auxiliar essa semana. Alguma
pergunta?
Ninguém respondeu nada, mas todos, sem exceção, trocaram
olhares confusos. Emma tinha apenas 20 anos, a mesma idade de alguns deles e no
máximo um ano mais velha que os outros. Mas diferente deles, quando se formou
em Hogwarts em 2016, não entrou para a academia de aurores, Micah havia
encaminhado ela direto para Quântico. E para completar, ela ainda tinha um
visual peculiar, com roupas bem coloridas e piercing. Eu também estaria
confuso.
- Certo. A aula de hoje será sobre casos antigos forenses.
Estaremos trabalhando em um caso fornecido pelo Capitão da Scotland Yard de um
traficante de drogas de quase 20 anos. Nada mais arquivado que isto. Sei que
vocês já tiveram aula sobre arquivos mortos, mas agora vocês vão aprender a
encontrar evidencias através da ciência. Alguma pergunta? – uma menina levantou
a mão – Sim?
- Alguém avisou a você que o Halloween é só em outubro?
- Seu nome é...? Deixe me adivinhar. Penélope – ah, Penny.
Lembrava dela.
- Você sabe ler e viu minha ficha, parabéns.
- Sim, eu sei ler. Também posso dizer que você tem gatos.
- Qualquer um diria que tenho um gato.
- Um gato malhado laranja e dois gatos Calicós. É alérgica a
alimentos cítricos. – Emma foi se aproximando de Penny e segurou sua mão – Foi
jogar boliche na noite passada. É deficiente em vitamina D... – a
essa altura a turma inteira já estava rindo e eu estava fazendo um enorme
esforço para não me juntar a eles – E está ovulando. Mais alguma pergunta? –
Penny não respondeu, obviamente – Ótimo. De volta ao caso.
Depois disso, a aula correu muito bem. Emma apresentou o
caso em que eles iriam trabalhar, já os informou do projeto para o final do
curso e marcou a aula onde sairíamos para trabalhar no campo, ou seja, no
galpão de evidencias da Scotland Yard. A manhã passou e sequer percebi.
- Me acompanha no almoço ou tem compromisso? – Emma falou
enquanto juntava as coisas na mesa – Eu pago.
- Tenho que buscar as crianças na escola e levar para o
abrigo, mas eles só saem 15h, tenho três horas até lá. Não vou recusar comida
de graça.
- Ótimo! Tem um restaurante novo do Jamie Oliver no Soho que
estou louca pra conhecer.
Chegamos ao restaurante em menos de meia hora e fomos
acomodados em uma mesa de quatro lugares. O cardápio era italiano, então
qualquer coisa que pedíssemos estaria excelente. E como não íamos mais
trabalhar no resto do dia, pedimos a carta de vinho.
- Eles já estão chegando – Emma comentou checando seu
celular – Droga, meu cartão com o nome novo ainda não ficou pronto. Maldito
banco.
- Por que mudou para Sciuto, afinal? Gostava de Blanchard.
- Não me sinto uma Blanchard desde toda a confusão de
descobrirem que não era filha deles. Tampouco me sinto uma Karev, então escolhi
um nome só meu. Gostei de Sciuto, é diferente.
- Vai mudar o nome outra vez depois do casamento? –
perguntei a ela.
- Não, ela vai mantê-lo – Otter responder por ela, surgindo
por trás da minha cadeira, e bateu em meu ombro antes de beijar Emma e sentar
ao seu lado.
- Olá, olá, minha gente, já aviso que estou acordada há 48
horas e faminta! – Clara puxou a cadeira ao meu lado e se sentou.
- Por que demoraram tanto? Achei que chegariam aqui primeiro
– Emma perguntou.
- Culpa da Clara que não saiu no horário – Otter respondeu e
Clara fez uma careta pra ele.
- Não é minha culpa ter aparecido um paciente de última
hora.
- Tia Louise está marcando pesado, não é? – perguntei rindo.
- Lembra no natal, que sem querer contei que o apelido dela
no St. Mungus era Medusa e todos achamos que ela estava brincando quando disse
que a verdadeira Medusa era a versão dela que trabalhava no John Radcliffe? – e
assentimos, já rindo da expressão no rosto dela – Não era uma piada. Medusa não
faz jus ao que é minha mãe naquele hospital. Ela é... Má.
- Clara, não está exagerando um pouco? – Emma perguntou
assustada – Sua mãe é tão legal e gentil.
- Ela fez um homem quase do tamanho do Hagrid chorar hoje. E
nem encostou um dedo nele.
- Está de folga hoje? – perguntei.
- Graças a Merlin. Plantão do inferno de 48 horas em um fim
de semana para toda a turma e a segunda de folga, mas amanhã tem aula normal.
Quando Otter ligou convidando para almoçar pensei em recusar, preciso muito
dormir, mas ele insistiu tanto e disse que ia pagar, então...
- É, também fui atraído até aqui por um almoço grátis –
ergui a mão para um high-five e ela bateu – Mas eu não poderia ser chamado de
detetive se não achasse isso suspeito.
- Nick está certo – Clara completou – Desembuchem.
- Ok, certo – Emma riu e Otter começou a falar – Vocês já
sabem que marcamos o casamento para 17 de outubro, então já estamos começando a
eliminar tarefas.
- Queremos que vocês sejam um dos nossos casais de padrinhos
– Emma completou – Como temos amigos em comum, vamos escolher juntos todos os
casais e na hora separamos quem fica de que lado.
- Aceitam o convite? – Otter perguntou e Clara olhou para
mim sorrindo.
- Mas é claro que sim! – respondemos juntos e eles sorriram
animados.
- Quem são os outros? – Clara perguntou curiosa.
- Bom, já falamos com Connor e Becky e Nigel, é claro. –
Otter começou a listar – Ethan e Brianna, Rupert e Brian também, mas ainda não
falamos com eles.
- Nigel vai entrar com a minha irmã Parvati, Rupert com
minha prima Julie e Brian com a minha melhor amiga, Abby.
- Uau, só 10 meses até o casamento, é muito pouco tempo! –
Clara falou e Emma fez uma cara de pânico.
- Sim, é muito pouco tempo, vamos precisar da ajuda de vocês
para sair tudo direito.
- Conte comigo! – ela respondeu animada – Não entendo muito
do assunto, mas posso cumprir qualquer tarefa. E minha mãe é expert em festas
de casamento, qualquer coisa peço socorro a ela.
- Muito bom ouvir isso, porque sábado que vem tem uma feira
de noivas no centro de Londres e vou precisar da opinião das minhas madrinhas
nela.
-Não está mais tão empolgada, não é? – perguntei rindo à
Clara.
- Na verdade, precisamos de todos os padrinhos que estiverem
à toa para ir à feira – Otter interrompeu e Clara apontou para minha cara rindo
– Já estamos com as credenciais, esperamos todos na entrada às 8h.
- Cara, você vai ficar me devendo uma. E das grandes.
Começamos a rir, mas se eles precisavam da nossa ajuda para
fazer esse casamento sair em 10 meses, era nosso dever ajudar. E se isso
significava perder um sábado inteiro em uma feira de noivas, que seja. É pra
isso que servem os amigos, certo?
°°°°°°°°°°
Sábado acabamos todos indo à feira. Ethan e Brian, sortudos,
estavam de plantão e eram os únicos ausentes. Era tudo muito chamativo e
tentador, e sem perceber acabei entrando no clima e opinando sobre tudo que era
questionado por Otter e Emma.
Não sei dizer como isso aconteceu, mas sem que me desse
conta estava discutindo com Nigel sobre arranjos de mesa quando meu telefone
tocou e o argumento equivocado dele foi interrompido. Era meu advogado mandando
que eu corresse até o fórum imediatamente, que o juiz havia me chamado. Larguei
o arranjo que estava segurando com Nigel e corri até Brianna do outro lado da
tenda em que estávamos. Ela despejou todos os panfletos que segurava com Clara
e saímos às pressas da feira.
- Será que são boas noticias? – perguntei ansioso enquanto
entravamos no prédio da vara da família.
- Ele mandou lhe chamar no meio de um sábado. São boas
noticias, pode ter certeza.
Quando entramos na sala onde aconteciam as audiências da
vara de família, vi que a assistente social que estava cuidando do caso já
estava lá e Austin e Molly estavam com ela. Elas acenaram quando me viram e
acenei de volta, mas Brianna me empurrou direto para onde meu advogado estava
de pé.
- Vim o mais rápido que pude – disse um pouco esbaforido
parando ao lado dele. O juiz nos encarou com um olhar curioso.
- Planos para se casar, Sr. O’Shea? – perguntou olhando de
mim para Brianna e percebi que ainda estávamos com os crachás cor-de-rosa nada
discretos da feira.
- Não Meritíssimo, só estávamos ajudando um casal de amigos –
Brianna respondeu rindo. Ela e o juiz já se conheciam há algum tempo.
- Por um momento achei que não havia sido informado sobre
seu divorcio – Brie riu e ele colocou os óculos, me encarando sério – Sr. O’Shea,
gostaria que soubesse que não é do meu feitio autorizar que um pai solteiro
seja responsável por dois menores que não têm qualquer relação sanguínea com
ele. No entanto, em meus quase 40 anos como juiz da vara de família, sempre procurei
fazer aquilo que entendia como o melhor para o menor. Minha prioridade é sempre
o bem estar da criança e no seu caso, entendo que o melhor para elas é que
fiquem com o senhor – Brianna apertou meu braço, mas ainda estava imóvel esperando
ele acabar de falar – A partir do hoje, o senhor tem a guarda definitiva de Austin
e Molly North – e bateu o martelo na mesa.
- Nick, Nick! – senti alguém pulando em cima de mim e
segurei Molly antes que ela caísse – Vamos ficar com você agora? Vamos poder ir
pra casa?
- Sim, minha princesa, agora vamos para casa – Austin correu
também e me abraçou, depois abraçou Brianna.
- Estou lhe concedendo a guarda de duas crianças confiando
que cuidará bem delas, Sr. O’Shea – o juiz falou outra vez – Não me desaponte.
- Não vou, Meritíssimo.
Ele assentiu parecendo satisfeito e encerrou a audiência, já
chamando o próximo caso. Sai do tribunal com Molly e Austin pendurados no meu
pescoço, tanto ou mais agitados que eu. Fomos direto até o abrigo pegar as
coisas deles e no caminho liguei para meus pais. Sabia que em questão de
segundos eles já teriam ligado para toda a família e que naquela noite teria um
jantar pra lá de animado na casa de alguém.
Epílogo
Valentine’s Day, 2027, 04.30hs. da
manhã.
O despertador apenas fez o barulho
para soar o alarme e eu já o travava para evitar o barulho irritante. Olhei
para o lado e sorri ao ver, que minha filha dormia profundamente abraçada ao
seu cachorro de pano, aspirei seu cheiro de sabonete de bebê por um tempo e
beijei-a antes de me levantar para ir trabalhar. Depois de pronta, peguei minha
arma de uma caixa segura que ficava no alto do meu closet, e após verificar se a arma estava carregada, a
coloquei no coldre, ouvi os barulhos familiares, que Dana, minha amiga e babá
de minha filha, fazia no quarto ao lado. Possivelmente ela já estava em frente
ao seu computador. Saí do meu quarto e ví que estava certa. Aproximei-me e ela
me estendeu uma xícara de café fresco e forte, acompanhado de uma maçã, suspirei
aliviada, por ela ser tão prestativa.
- Já tão cedo? – disse apontando
para o monitor onde a janela de bate papo piscava ininterruptamente.
- Ryan quer me convencer a sair mais
tarde, mas recusei.Disse que se nos conhecermos no dia dos namorados, não será
uma data nossa, mas de ‘toooodo’ o mundo, e hoje estou trabalhando.Vamos sair
amanhã.- disse de forma exagerada, e senti-me culpada, pois a garota já tinha
este namorado virtual, há mais de seis meses e ainda não se conheciam.
- Não faça isso, posso conseguir
alguém para ficar com Sophia até eu chegar, sabe que a família é grande, minha
madrasta...
- Não seja tola, eu e sua filha estamos esperando ansiosas por
hoje, ela até marcou com uma amiguinha da escola. Vamos ao salão de beleza, os
bombons hoje são de graça, se você faz o especial dos namorados. - ri pois
sabia que ela falava a sério, mas a olhei interrogativamente e ela respondeu
rápido:
- Não se preocupe, não vou deixar
que ela coma doce demais, ou pode ter uma dor de barriga. Caso ela exagere um
pouco ou eu (disse rápido) - sei que aquela poção com gosto de erva doce,
resolve o problema.Nos vemos à noite, chefinha. Tenha um bom dia dos namorados.-
sorri e desejei o mesmo a ela. Nos despedimos e fui para o meu plantão de 12
horas como sargento da Unidade de Repressão a Sequestros e Negociação da
Scotland Yard.
-o-o-o-o-o-o-o-
Elena odiava o Dia dos Namorados. Fato!
Aquele costumava ser o dia do ano em
que o lema da equipe ‘conectar, respeitar e proteger’, era mais utilizado, e
nem sempre o final era feliz. Quem sabe ao final deste dia, houvessem mais
alegrias que tristeza, como sempre ela e sua equipe iriam se esforçar para isso,
mesmo desfalcados de um atirador de elite. Já era quase final do turno quando receberam
uma última chamada.
O homem estava no alto da ponte,
vendo os carros passarem vinte metros abaixo, e fingiu não ouvir quando a policial
se aproximou e falou devagar, mas de forma clara:
- Senhor...Eu sou a sargento Elena Kovac,da
Unidade de Negociação da Scotland Yard, como você está?
O homem que estava abraçado a uma
coluna da ponte, continuou com os olhos fixos nos carros que estavam sendo
desviados pela policia. Ela continuou se aproximando e usando um equipamento de
escalada, prendeu um gancho com uma corda na ponte e outro em um cinto na sua
cintura, caso fosse necessário pular para segurar o homem. Não estranhou quando
seu amigo, o detetive James Thruston, se aproximava, enquanto outro oficial
procurava dados sobre o saltador e falava em seu ouvido pelo comunicador.Ela
continuou seu trabalho:
-Posso perguntar o seu nome?- e o
homem a olhou só por alguns segundos e voltou a olhar para a frente, seu olhar
era triste quando levantou um dos pés, e ficou olhando um de seus sapatos cair.
Ela optou por mudar a sua abordagem, sabia que teria que alcançar aquele lado
escuro e desolado do homem de forma mais rápida:
- O senhor está planejando se matar
hoje?Talvez se conversar com alguém...- nesta hora alguns expectadores, começaram
a gritar para que o homem pulasse e ele começou a prestar atenção neles.
- James...- disse baixo, e o
detetive, que ja havia trabalhado com ela, entendeu o que ela queria e foi
afastar os curiosos, mas logo voltou para o seu lado.
- Você tem a idade da minha
filha...- disse o homem depois de um olhar furtivo para ela.
- O senhor tem uma filha...Quer que
eu entre em contato com ela? Ela talvez queria conversar um pouco com o
senhor...- disse Elena, mas o homem, após olhar para os carros na avenida, a olhou novamente e disse enquanto dava mais
um passo para longe dela:
- Eu vou ficar bem...
- Hey, hey , vamos pensar um pouco
mais, vamos ficar calmos...- e ela instintivamente esticou o braço e o homem
gritou:
- Não me toque ou eu pulo.Vou fazer
do meu jeito.
-Está bem, vou lhe dar algum espaço,
você precisa pensar... – Elena respondeu, e logo outro oficial de apoio, disse
o nome do nome do homem, através do fone de ouvido.
- Vamos lhe dar espaço, Douglas.Lembra
do meu nome? Sou Elena.- e o homem a olhou de canto de olho levemente
espantado, mas voltou a olhar para a rua abaixo soltando uma das mãos.
- Ele não parece te ouvir, acho que
vai ter que tentar um choque de realidade, Lena...- disse James baixinho e ela
assentiu, subindo na grade da ponte e se sentando a pouco mais de 1 metro de
distância do homem. Sabia que James, já estaria segurando a sua corda.
- Então...você quer pular...Quer que
eu lhe conte como vai ser? Eu posso dizer porque eu ja vi como é quando o seu
corpo bate no chão e seu crânio explode, feito uma melancia caindo do caminhão
da feira. - o homem não se moveu e ela
continuou:
- Sabe o que é pior? É que você pode
não morrer quando seu corpo bater no chão. E se tiver familia, filhos...Eles
vão ver o que sobrou de você e terão que viver com isso. (notou que o homem
franziu a testa pensativo) - Não é o que você quer não é? Ser um fardo para sua
família? Porque é isso que você será vegetando em cima de uma cama, usando
fraldas, babando...Está me ouvindo, Douglas?- o homem tirou os olhos da rua e
olhou para o lado dela, parecendo constrangido e disse seco:
- Sim, estou ouvindo, não sou surdo.-
Nesta hora, ela ouviu baixinho em seu ouvido:
- Sargento, eu consegui contato com
a família, ele tem um casal de filhos. É todo certinho, tem emprego, e dentro
do carro há uma carta de despedida para os filhos Alicia e Jason, dizendo que
não aguenta ficar outro ano longe.- James, que também tinha um comunicador havia escutado a mesma informação, deu um leve
toque em sua corda, para lhe passar apoio, e ela tentou novamente:
- Eu conheço um cara, que trabalha
com sobreviventes, e quase todos disseram que se arrependeram assim que seus
corpos bateram no chão , e nenhum deles tentou se matar novamente... (tomou
cuidado em não citar que a pessoa em questão era um psicólogo) e continuou:
- Pode me dizer porque está fazendo
isso, Douglas?
- Não aguento mais...- e James disse
urgente em seu ouvido, após ouvir o seu comunicador:
- A mulher dele morreu há três anos
e hoje seria o aniversário de casamento deles.- Lena sentiu muita pena do
homem, mas se desligou para poder ajuda-lo.
- Foram casados por quanto tempo,
Douglas?
- 24 anos. - foi a resposta do homem
e então ele começou a falar:
- Ela tinha um calendário na gaveta
com todos significados das bodas, e todo ano nós celebravamos, mesmo com pouco
dinheiro sabe? No primeiro ano trocamos cartões...Depois bolas de algodão...Quase
chegamos a 25 anos....Você é casada?
- Bodas de Prata! É maravilhoso.Fui
casada por três anos, ele morreu... Mas me fale mais, Douglas, eu vou gostar de
ouvi-lo...- disse Lena e sem que ele percebesse, ela estava mais perto. - e o
homem continuou seu desabafo:
- Então você me entende...Tinhamos um
porão em casa, então resolvi pintar tudo de prateado, comprei guardanapos,
copos, louças baratas porém prateadas para entrar no clima, coloquei fotos
nossas e das crianças em porta retratos, encomendei um jantar especial para nós....Mas
na véspera de nosso aniversário de casamento ela foi atropelada...Por um
bêbado...ela nunca chegou a ver o seu presente. - e começou a chorar, enquanto
se equilibrava na ponte.
- Sua esposa teria adorado,
Douglas.- e ele respondeu:
- Eu não consigo mais ficar longe
dela...Não aguento mais...Tudo acabou...
- Isso é depressão, e não impulso.-
sussurrou James em seu ouvido, fazendo eco às suas próprias conclusões.
- Nada acabou, e vou lhe dizer
porque...Meu marido era filho único, e quando tinha 14 anos, o seu melhor
amigo, perdeu o pai (ouviu o espanto de James pela sua abordagem, mas não havia
tempo a perder). Na verdade, foi ele quem encontrou o pai, que tinha se matado
com um tiro na cabeça. Ele parou de ir à escola, de comer, e isso não durou
apenas alguns dias, foram semanas assim, até que um dia, sabe o que ele fez? Ele
se matou! O melhor amigo do meu marido, se matou porque não conseguia viver sem
o pai dele.
- Meus filhos não deixariam isso
acontecer...Eles ficarão bem...- e Lena continuou firme como se o homem não tivesse
falado:
- Como você sabe disso Douglas? Olha
só o que você está fazendo para ter sua esposa de volta. O que acha que suas crianças
farão? Elas vão se sentir zangadas, confusas, e depois vão se sentir culpadas,
meu marido se sentiu culpado pela morte do amigo, e isso o marcou a vida toda,
tanto que quando as coisas ficaram difíceis...(ela respirou fundo)...Imagine o
que esta sua atitude fará aos seus filhos...- o homem fechou os olhos e Lena
continuou:
- Eles vão se perguntar o que
fizeram de errado ou o que deixaram de fazer. É isso o que você quer para eles?Uma
vida de perguntas sem respostas? – o
homem ficou um tempo de olhos fechados, parecia pensar, após mais uns segundos,
abriu os olhos, como se despertasse de um sonho ruim, olhou para a rua abaixo
dele, e começou a ir para trás para descer da pilastra, sendo pego por Elena e James,
enquanto começava a chorar com soluços entrecortados:
- Des..Desculpa...Por favor, me
desculpe...- dizia o homem e Elena disse enquanto o segurava entre os braços:
- Você não tem nada do que se
desculpar meu amigo, nada ok? Nós vamos cuidar de você e vamos leva-lo para
casa, para os seus filhos, e tudo vai melhorar, eu sei que vai. - e o homem
assentia enquanto chorava agarrado à Elena.
Quando voltaram à Central, após
cuidar dos relatórios, Elena se trocou e estava esperando o elevador, quando
viu James passar apressado a caminho das escadas, e ele disse animado, depois
de assobiar para o modo como ela estava vestida:
- Hey linda, vai sair para um
encontro quente? Quem é o sortudo?- e ela o olhou sorrindo:
- Será quente mesmo, noite mexicana
com Sophia e Dana. Obrigada, pelo suporte com o saltador, mas você não estava
lá hoje por acaso...
- Sempre cobrirei as suas costas, e
por incrível que pareça, foi um acaso, mas eu queria mesmo falar com você. O
seu chefe me pediu para avaliar o snyper
que ele selecionou para a equipe e eu aprovei a escolha.- estranhei pois ele não
havia conversado comigo antes, mas como confiava em seu julgamento, deixei para
lá:
- Espero que não seja alguém que
tenha dedos moles no gatilho.Quem é?
- Não acha que vou deixar qualquer um
proteger minha negociadora favorita não é? Fique tranquila, é um ex colega da marinha, que se reformou, é o melhor do ramo, depois conversamos, tenho que correr
para casa.
- Você não vai me dar nenhuma pista?
- Tudo o que tenho tempo de dizer
agora, é que eu me sentirei tranquilo com ele aqui, porque sei que vai proteger
você e a equipe, como se fosse um cão de guarda.- e entrou para o acesso às
escadas, e ela pode ouvi-lo rindo de sua própria piada enquanto uma porta se
fechava e o elevador à sua frente se abria.
Deu de ombros, resolveu se desligar
do assunto naquela noite, fosse quem fosse o novo membro da equipe, seria bem
vindo, já era hora de sua equipe estar completa novamente.
-o-o-o-o-o-o-o
Por todos os lugares que se olhava, viam-se os
balões vermelhos, e casais de namorados de várias idades trocando carinhos,
enquanto o a noite avançava. Ele havia esquecido que hoje era o dia dos
namorados.
Saiu do metrô, na Liverpool Street,
e caminhou se desviando das pessoas, até o South Place Hotel. O lobby estava
movimentado, chegou ao balcão da recepção e o jovem que o atendeu, procurou
conter seu desagrado, ante suas roupas amarrotadas, sua barba por fazer e o
saco camuflado do exército que carregava nas costas, o ignorou e pediu:
- Gostaria de um quarto, por favor.
- Estamos lotados, senhor...- e
antes que falasse mais alguma coisa, um senhor calvo, se aproximou esbaforido,
e de forma nada sutil, afastou o atendente para o lado, dizendo:
- Senhor McGregor, que prazer voltar
a recebê-lo. Gostaria de ficar na mesma suíte?
- Qualquer quarto está bom,
Bertrand.- respondeu com a voz cansada e o homem sorriu:
-
Aqui está a sua chave, seja bem vindo senhor.
Quando entrou no apartamento, ignorou
as rosas vermelhas e o champanhe com morangos e bombons em cima da mesa e foi direto
até o banheiro tomar um longo banho. Quando saiu, foi até a janela e ficou
olhando para o movimento na rua. O hotel ficava numa área cheia de bares e
restaurantes, bem no coração da área financeira de Londres, e naquela noite o
movimento era enorme. Sorriu, pois havia um bom tempo não via uma aglomeração
de pessoas se divertindo, nos últimos tempos, pessoas em bando o deixavam em
alerta. Era bom variar um pouco. Ouviu uma batida na porta e foi abri-la,
achando que fosse o serviço de quarto, porém era um visitante que disse:
- Não achou que chegaria na minha cidade sem
que eu soubesse, não é?- e ele respondeu estendendo a mão:
- Para todos os efeitos também é
minha cidade. Olá James!- e o outro respondeu:
- Olá Julian, já era hora de voltar
para casa.- enquanto era puxado para um abraço.